Dieselgate: Estará o gasóleo em risco?

Foi com algum espanto meu que nos últimos dias me deparei com uma panóplia de notícias vaticinando o fim do gasóleo. A minha reação inicial foi a de “mas que raio é que se passa?”. Quando vejo assim tanto alarido dos media em torno de assuntos relacionados com tecnologias ou energia, tendo a torcer um pouco o nariz e parto logo à procura de respostas (basta ver o que se passou com a notícia da Audi/Sunfire). Uma vez mais é imperativo perguntar: “Há razões para alarme? Será a histeria justificável?”

O escândalo da Volkswagen

Este foi sem dúvida o evento que motivou toda esta comoção. No passado dia 18 de setembro a agência de proteção ambiental norte-americana EPA emitiu um auto de infração à Volkswagen por alguns dos seus modelos em produção infringirem o limite de emissões de poluentes definidos na ata Clean Air (nomeadamente emissões de óxidos de azoto (NOx)). Até aqui não há nada de extraordinário visto já se terem registados outros casos em que determinado veículo não cumpre com diretivas ambientais, sendo por isso necessário proceder a pequenas modificações ou afinações, e em casos mais extremos proceder à restrição na circulação destes veículos e exigir uma manutenção mais rigorosa. O problema aqui é que a Volkswagen fazia batotice nos testes.

Basicamente, a estratégia do fabricante alemão passava pela implementação de código que conseguisse inferir se estava a ser alvo de um teste laboratorial e ajustar a sua performance para que as emissões do veículo se encontrassem em concordância com a legislação. Obviamente que esta estratégia fraudulenta iria criar muitas ondas e as consequências não tardaram em aparecer.

8284998644_9a68f3ec4d_zUma notícia que já não é nova

Como em quase tudo na vida, muitas pessoas preferem “chorar sobre o leite derramado” do que levarem as advertências um pouco mais a sério. Já em 2011, o Centro Comum de Investigação da União Europeia tinha emitido um relatório científico sobre as emissões de veículos ligeiros (pode consultar o relatório aqui) onde referia que “a implementação de sensores e outros componentes eletrónicos em veículos ligeiros poderá permitir que estes detetem se estão a ser alvo de um teste de emissões e ajustar a sua performance em concordância com a legislação”.

No entanto, e mesmo após 4 anos, nada foi feito. Tanto a Comissão Europeia como os vários governos de países europeus não chegaram a um acordo sobre que entidade deveria ser responsável por esta matéria, apesar do Departamento de Transportes Britânico ter recebido um relatório do ICCT (The International Council on Clean Transportation) onde era afirmado que existia um “real problema de incumprimento de emissões de óxidos de azoto em veículos ligeiros a diesel”. No entanto este aviso parece estar em desacordo com os resultados dos estudos realizados pelo DEFRA (Departamento de Ambiente, Comida e Assuntos Rurais Britânico) que permitiram observar que houve um declínio significativo nas emissões de NOx e de partículas de pequenas emissões (que diminuíram para metade desde 1996).

Será o diesel mais poluente?

Quando se tenta avaliar o real impacto ambiental do uso de gasóleo acaba-se por entrar numa zona um pouco “cinzenta”.
No geral, os produtos associados à queima de gasóleo são mais nocivos para o ambiente e seres vivos comparativamente com a gasolina. No entanto há que fazer uma ressalva: na realidade, e para a mesma quantidade de energia gerada na combustão, a queima de gasóleo gera aproximadamente menos 15 a 20% de dióxido de carbono comparando com a gasolina, estando este ponto totalmente ligado à estrutura química dos componentes do combustível (como deverá ser óbvio para muitas pessoas). No entanto os resultados obtidos em “cenários reais” demonstram que, para a mesma distância percorrida, as emissões de CO2 são tangencialmente inferiores.

O problema do diesel é a quantidade elevada de óxidos de azoto e de partículas de pequenas dimensões que ficam suspensas no ar. De acordo com um estudo conduzido pela DEFRA publicado em setembro de 2015, o número médio de mortes prematuras anuais no Reino Unido atribuídas especificamente ao dióxido de azoto (NO2) ascendia a 23500, enquanto que as mortes associadas à inalação de partículas dispersas “ficou” pelas 29000. Estes números são chocantes mas há que frisar que os motores de combustão não são os únicos responsáveis pelas emissões.

Quais as repercussões?

Para já, as consequências imediatas deste “escândalo” passaram pela demissão de algumas chefias dentro do grupo Volkswagen, quedas acentuadas em bolsa, buscas a escritórios, pedidos públicos de desculpa, recolha de veículos e até alguns processos-crime instaurados por civis. No entanto houve uma infeliz ocorrência por parte do CEO da Volkswagen nos Estados Unidos, Michael Horn, que afirmou que a decisão de instalar o software não partiu do nível executivo mas por parte de “engenheiros que o instalaram vai-se lá imaginar porquê“. Verdade ao não (e a mim custa-me a engolir esta afirmação), este jogo da batata quente só fica mal ao o grupo, e temos que ser francos, muito dificilmente esta decisão passava despercebida pelas chefias. Se assim foi, então os problemas da VW não passam só por software manipulativo.

Mas as mudanças não se resumiram apenas ao seio do grupo alemão. Vários governos por todo o mundo também tomaram algumas medidas: Países como o Canadá, Índia ou Suécia abrira investigações para determinar se houve violações dos limites de emissões no país; Roménia e Suíça proibiram a venda e registo de viaturas da Volkswagen.

Mas a medida que mais “comichão” me meteu veio por parte da França: neste momento o governo francês, pressionado por partidos e grupos ambientais, equaciona a implementação de uma sobretaxa sobre o diesel com o preceito de que “o dinheiro proveniente da taxação servirá para combater a poluição”. Faz lembrar um pouco o protocolo de Quioto: não interessa se poluis, paga-se uma multa e está tudo resolvido.

Ruben

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s