Cultura de conhecimento ou de desinformação científica? Pt. 4: Fontus

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Quando se pensava que não podiam existir mais casos de desinformação, eis que vos trazemos outro belo exemplo… Não, não podemos começar assim a descredibilizar estas invenções… Não achamos isso junto por isso vamos lá reformular a coisa:

Imagine o que seria se nunca mais se tivesse de preocupar em ficar sem água durante as suas sessões de exploração da natureza, as suas aventuras no mar ou até mesmo no seu quotidiano? Imagine o que seria produzir água a partir do ar e da luz solar.

Apresento-vos Fontus: a garrafa que se enche sozinha (mas não como a publicitamos porque seria mau para o negócio, já que o nosso marketing se baseia em premissas que violam as leis da natureza)

Airo & Ryde by Fontus

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Fontus é uma start-up austríaca que surgiu com a ideia de desenvolver um produto que, de forma perfeitamente autónoma, permitisse “gerar” água a partir do ar para que os seus utilizadores possam desfrutar das suas atividades sem que se tenham de preocupar com a possível falta de água ou eletricidade.

Muitos devem pensar que isto é uma grande tanga, mas surpreendentemente não é… mas só unicamente numa pequena fração daquilo que os “inventores” afirmam. De facto é possível “produzir” água a partir da condensação da água presente no ar usando apenas luz solar para alimentar o sistema. Essa tecnologia já existe (embora usa a tradicional corrente elétrica da rede) e costuma de ser chamada de desumidificadores. Sim, o Fontus no fundo é um desumidificador portátil alimentado por painéis fotovoltaicos.

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E será que REALMENTE funciona para aquilo a que se propõe? Claro que não! Até as Plastic Roads se aproximam mais a algo verdadeiramente funcional do que o Fontus.

Mas vejamos porquê (sim vou apresentar cálculos):

  • Tipicamente cada pessoa deveria consumir diariamente pelo menos 1.5 litros de água, que de uma maneira algo grosseira corresponde a 1.5 kg de água;
  • Considerando uma temperatura de 20ºC e uma pressão de 1 atm, ar com 100% de humidade relativa contém 16 gramas de água por KILO de ar, sendo que nessas condições 1 kg de ar ocupa aproximadamente 0.77 m3. Fazendo as contas, para conseguir 1.5 litros de água seria necessário “processar” cerca de 72 m3 de ar… por dia. Francamente não é um valor astronómico: para terem alguma noção especial corresponde ao volume de um tanque com dimensões 4m x 4m x 4.5m.
  • Nas condições anteriores a água apresenta um entalpia de condensação de aproximadamente 2450 kJ/kg, sendo necessário por isso cerca de 3675 kJ para condensar 1.5 litros de água.
  • Dadas as dimensões do Fontus podemos assumir que, na melhor das hipóteses, usará uma ventoinha de 50mm para fazer a circulação do ar. Tipicamente uma ventoinha dessas dimensões consegue gerar um fluxo de ar de 15~20 m3/h (para sermos conservativos vamos considerar 20 m3/h) com uma potência mínima de 1W. Sendo assim seria necessário operar durante 3.6 horas para produzir a água necessária, gastando no processo cerca de 13 kJ. Até aqui os valores são surpreendentemente bons e encorajadores.
  • (agora é que as coisas vão começar a azedar) No pior cenário possível demoraríamos 24 horas a produzir 1.5l de água, o que simplificadamente se resume a uma potência total do equipamento de 43 watts (isto assumindo uma eficiência de 100% o que NÃO acontece na natureza!). Como podem ver, 43W é a potência MÍNIMA necessária para que este produto consiga fazer aquilo a que se propõe.
  • Nestas condições, e assumindo que conseguimos ter um painel fotovoltaico capaz de gerar uma potência de 150W/m2 e que existe luz solar suficiente para operar nestas condições durante 12h/dia, seria necessário pelo menos um painel com 0.57 m2 (um pouco mais do que uma folha A2 que tem 0.5 m2) e isso já começa a ser um painel grande demais para poder ser facilmente transportado.
  • Agora caindo no mundo real: Se a humidade relativa média do ar for de 50% e todo este processo tivesse uma (excelente e impossível de alcançar) eficiência de 75%, seria necessário um painel com uma área de 1.5 m2.
  • De acordo com o que se pode extrapolar através das imagens apresentadas pelos criadores o painel por eles usado no Fontus Airo terá uma área de 0.1m enquanto que o Ryde não terá um painel maior do que 0.05 m2. Sendo assim seria necessário esperar 2 SEMANAS para gerar água para um dia usando o Airo e 1 MÊS com o Ryde.

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MAS SERÁ QUE ALGUÉM FEZ O RAIO DOS BALANÇOS ENERGÉTICOS??????!!!!!!

É que nem o pessoal das Solar Roadways falhou por tanto…

Na verdade deve ter havido uma alma iluminada que decidiu fazer as contas porque algures na página do já habitual crowdfunding eles revelam que o Fontus “poderá gerar pouca ou nenhuma água”. A sério? Não me digam…

Mesmo perante isto será que ninguém da equipa, epecialmente os “engenheiros” que devem ter tirado o curso com códigos de barras do Chocapic ou do Nestum, parou para dizer “oih, esta porcaria não funciona!”? Provavelmente os outros disseram “oh, mas tem uma garrafinha toda janota e já submetemos esta tralha para mil e duzentos concursos de design! Esquece lá isso e mete uma referência subtil para que depois possamos ter uma maneira de contornar todos os processos legais por publicidade enganosa”.

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Embora seja um ponto crucial para o funcionamento e viabilidade deste “produto”, ainda há outros fatores a considerar e que foram reivindicados. Talvez o mais importante, e que volta a cair na categoria de publicidade enganosa, é o argumento de se produzir água própria para consumo.

Para deixar bem claro: água obtida por condensação não é própria para consumo devido à sua mineralização total (ou falta dela). Já se encontra devidamente documentado o efeito da mineralização de águas na saúde, sendo que todos os resultados apontam para os efeitos nocivos que água com baixa mineralização pode causar ao organismo. Para se ter noção, quando se ingere água com teores muito baixos de cálcio o organismo tende a responder de forma a balancear esse défice, sendo que essa resposta passa por ir “roubar” cálcio a locais com elevada biodisponibilidade (como é o caso dos dentes e ossos, a longo termo poderá ter impactos no sistema nervoso central). Quem diz cálcio diz outros minerais como o magnésio ou potássio… Obviamente que os senhores por trás deste projeto não podiam ignorar este ponto, não é? A solução por eles encontrada foi a adição de um compartimento em que podem ser colocadas pastilhas que procedem à mineralização da água condensada.

Porreiro, mas há um pequeno detalhe. Como não se consegue prever a quantidade de água que se vai produzir,é difícil prever que quantidade de aditivo a usar… Detalhes…

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Há outros pontos que se pode abordar como a reivindicação que é uma solução ecológica por se reutilizar a garrafa (a sério que usam isto como argumento?!), ou o facto de não haver qualquer controlo na qualidade dá água produzida, no entanto o facto de não ser um produto funcional que consiga os objetivos das suas premissas faz com que isto não passe apenas de mais um esquema de pseudo-ciência, porque nem quero apelidar isto de “invenção”. E sim, eles também usaram o argumento que o Fontus poderá ser usado para levar água até zonas de elevada escassez.

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Receção dos mídia

Hey, olhem uma ideia fenomenal, tecnologicamente super simples que parte de princípios que são conhecidos há dezenas de anos, mas que nunca ninguém se lembrou de fazer! ‘Bora lá apregoar isto mesmo sem existir um protótipo funcional ou apresentarem qualquer tipo de prova em como isto é possível! Factos, quem precisa disso? Nós precisamos é de sensionalismo para vender!!!!

– jornalistas (não todos)

Não sei mas este parece ser o raciocínio da maioria dos jornalistas que ultimamente têm escrito nos mais diversos jornais e blogues. Já devíamos estar habituados à falta de conhecimento e rigor científico, à inexistência de espírito crítico ou até mesmo à falta de supervisão, mas há coisas que por vezes roçam o ridículo. Este é só mais um exemplo, mas a cobertura que foi dada ao Fontus roçou o inimaginável: existem imensos artigos escritos em jornais e reportagens em canais de televisão, mas o mais “estranho”, digamos, é o facto de ter ganho uma boa quantidade de prémios de inovação… Mas atenção foram todos prémios na área do DESIGN e não na funcionalidade, embora alguns dos prémios deveriam conter uma análise de viabilidade tecnológica como é o caso do prémio Katerva ou o prémio N.I.C.E..

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E como não poderia deixar de ser lá existiu o já repetente crowdfunding. Já se lembraram de parar e pensar o porquê destas “invenções” terem sempre de recorrer a crowdfunding e nunca serem patrocinadas por empresas? Será que não seria do interesse de algumas empresas cujo negócio assenta na produção e comercialização de equipamentos para desporto e aventura (como a Decathlon por exemplo) deterem alguns direitos comerciais sobre invenções como o Fontus? Desta vez foram “só” 1440 pessoas que perderam perto de 350 mil dólares…

-Ruben

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