Influência das Energias Renováveis nas emissões de carbono

Já é um facto consumado que a atividade humana é responsável pela emissão de uma quantidade bastante significativa de dióxido de carbono (e outros gases de efeito de estufa) para a atmosfera. Não pretendemos afirmar ou refutar que é a única causa ou a principal causa para as alterações climáticas que se observam: os dados por vezes parecem ser contraditórios em alguns aspetos, e neste ponto deveríamos ser um pouco mais sensatos.

No entanto, e como já foi dito por várias vezes, existe uma preocupação quasi-global (e que por vezes roça o fanatismo) em reduzir as emissões de CO2 para a atmosfera. Sem dúvida que tal pode ser conseguido olhando sobretudo para as emissões associadas à produção de energia: combustíveis fósseis geram, de forma direta, grandes quantidades de dióxido de carbono, enquanto que fontes renováveis não partilham essa característica.

Há alguns meses atrás, Emmanuel Macron (presidente da França) anunciou a intenção em reduzir a produção de energia por via nuclear. Entretanto outros políticos e manifestos grupos de activistas de países onde existe a presença de energias nucleares também manifestam opiniões de preocupação com o uso de fontes de energia nuclear (não propriamente científicas, como se vê pela falta de especialistas na área a partilhar da mesma opinião). Por conseguinte outros presidentes e governos têm anunciado medidas para aumentar a capacidade instalada das energias renováveis. Estas medidas aparentam ser o melhor caminho para cumprir algumas das metas assumidas, no entanto até que ponto serão estas medidas benéficas? Terão as energias renováveis um impacto nulo nas emissões?

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Emissões de GEE em ciclo de vida

A determinação das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) por parte de várias fontes de energia não é um processo simples ou direto. Ao contrário do que a maioria das pessoas pode pensar, as emissões associadas a uma determinada fonte durante o seu ciclo de vida não dependem apenas da geração de forma direta destes gases (combustão para ser mais específico). Se assim fosse, toda a energia de fonte nuclear, eólica, hídrica ou solar não geraria emissões de gases com efeito de estufa… mas não é bem isso que acontece. Ao longo do ciclo de vida de determinada fonte existe a imputação de uma determinada quantidade de dióxido de carbono equivalente associado ao seu potencial de contribuição para o aquecimento global, e que está associada não só à sua operação mas também à sua manutenção, construção, desmantelamento e tratamento de resíduos. Aí a coisa deixa de ser tão bonita como se pensava.

Em 2014 o Painel Intergovernamental Sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC) apresentou, baseado em relatórios anteriores, valores internacionalmente revistos e aceites acerca do potencial de emissões de GEE de várias fontes de energia, sejam elas renováveis ou não. O relatório é bastante extenso e certamente que não é uma boa leitura para a larga maioria das pessoas, e por essa razão são aqui apresentados, de forma resumida, alguns resultados disponíveis nesse relatório sob a forma de emissões de CO2 equivalente por ciclo de vida:

Emissões (gCO2eq/kWh)
Fonte de energia Mediana Mínimo Máximo
Carvão 820 740 910
Gás Natural 490 410 650
Biomassa 230 130 420
Geotérmica 38 6 79
Hídrica 24 1 2200
Solar CSP 27 8,8 63
Solar 41 26 60
Eólica onshore 11 7 56
Eólica offshore 12 8 35
Nuclear 12 3,7 110

Analisando a tabela verificam-se resultados expectáveis e compreensíveis, mas também resultados surpreendentes. Ninguém deverá ficar espantado com as emissões por parte do carvão, mas o gás natural já poderá surpreender algumas pessoas. A verdade é que o gás natural é bem mais “limpo” que o carvão no que diz respeito à sua combustão e como tal apresenta menores emissões de gases com efeito de estufa por unidade de energia produzida.

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Mas e em relação à biomassa? Porquê o valor ser significativamente menor que o carvão ou o gás, especialmente quando se trata de uma combustão de matéria? Neste ponto há que ter em consideração o seguinte: embora a combustão de biomassa consiga gerar grandes quantidades de GEE, é lhe imputado um impacto menor devido ao facto que, de grosso modo, cada kg de carbono libertado na combustão corresponde a 1 kg de carbono que a biomassa “consumiu” ao longo da sua vida. Porque é que ainda assim a pegada é tão significativa? Em termos práticos, o carbono consumido pela biomassa foi na forma de CO2 e durante a degradação de biomassa existe a libertação de grandes quantidades de metano (que de resto apresenta um potencial de aquecimento global 72 vezes superior comparativamente ao CO2). A exploração e transporte de biomassa também contribui significativamente para este número devido à enorme volumetria necessária para este tipo de processo.

Outro valor que poderá despertar algum espanto é o da energia hídrica. O valor mediano, tal como seria de esperar, é um valor bastante baixo. O que espanta é a gama de valores, com o mínimo de 1 grama e um máximo de 2200 gramas. Paradoxalmente, esta amplitude coloca a energia por via hídrica como a que apresenta menos emissões e a que apresenta mais emissões. Isto deve-se em parte ao enorme impacto que a indústria cimenteira tem nas emissões de CO2 (5% do total) mas também devido à vegetação que vai ficando alagada ao sabor das estações e das necessidades energéticas, e que ao entrar em decomposição liberta enormes quantidades de metano. Este fenómeno já era bastante conhecido mas ainda não tinha sido devidamente quantificado. Em novembro de 2016 foi publicado um estudo na BioScience que veio trazer algumas luzes acerca do real impacto nas barragens nas emissões de GEE, tendo chegado à conclusão que poderão ser responsáveis por aproximadamente 800 milhões de toneladas de CO2 equivalentes, correspondendo a aproximadamente 1.3% de todas as emissões de origem antropogénica, sendo espectável que este número aumente nos próximos anos.

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Em relação às outras fontes renováveis não há muito a discutir visto que já se previam baixos valores de emissões, mas existe mais um ponto que merece alguma atenção: de um ponto de vista de emissões e só de emissões, a energia nuclear apresenta-se como a melhor alternativa dentro das apresentadas, uma vez que consegue ter longos regimes ininterruptos de produção sem estar dependente de condições atmosféricas (um pouco à semelhança do que se consegue obter com biomassa e até um certo ponto com a hídrica), apresentando baixos valores de emissões de GEE.

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Todos estes fatores deviam ser tidos em conta quando se discute a temática das emissões, mas sistematicamente são ignorados já que muitos países ditos “cumpridores” rapidamente passariam a estar em incumprimento… Resta saber o que esses países pretendem fazer em relação a esta situação: se se calam e daqui a uns anos andamos à procura de bodes expiatórios, ou se incluem uma vez por todas estes fatores nos cálculos e metas…

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